Neste final de semana fui ao Brás. Lá, vi uma cena que me chocou. Uma mãe, com um bebê de colo (bem pequeno) vendendo balas, no meio daquela multidão. Na hora, apenas olhei espantada, acho que qualquer pessoa que olhasse para mim perceberia meu espanto pela minha fisionomia. A mãe tentava passar pelas pessoas, e o bebê a agarrava pelo cabelo, se debatia... parecia muito irritado. Foi então que, sem refletir nenhum pouco pensei: "Que louca, será que ela não enxerga o que está fazendo???"
Cheguei em casa e fui descansar. Comecei a lembrar daquela cena, ela não saía da minha cabeça. A princípio, julgava aquela mulher como se estivesse acima do bem e do mal, sem pensar nos motivos que a levaram a fazer aquilo. Depois, comecei a refletir melhor, a culpa foi tomando conta de mim... culpa por julgar aquela pessoa que eu nem conhecia, não sabia da sua história nem ao menos de suas necessidades. Eu digo sempre que meu filho é a minha prioridade, que ele tem que estar sempre em primeiro lugar. Trabalho o dia todo, chego em casa cansada e penso que, no final de semana vou me dedicar inteiramente a ele. Na minha cabeça, é uma receita de sucesso. Era... até me deparar com a cena do Brás. Prioridades dependem das necessidades. Acredito que aquela mulher não escolheu estar ali com aquela criança. se pudesse, talvez a colocasse em uma creche, trabalharia e, no final do dia, iria com ela para casa, cansada mas feliz. Se pudesse...
E eu? Se pudesse, trabalharia apenas na parte da manhã, ficaria a tarde toda com meu filho, auxiliaria nos estudos, prepararia suas refeições, brincaríamos... Se pudesse!
A vontade e a necessidade são coisas opostas e distintas. E, para uma pessoa com o mínimo de senso de responsabilidade, a necessidade fala mais alto. É assim, tem que ser assim.
Outro aspecto que pensei após esse acontecimento é o fato de meu filho ter um exemplo de uma mãe que trabalha, que tem responsabilidades, deveres... Sei que gostaria de passar mais tempo com ele, mas por outro lado, ele está crescendo em uma família que luta para conseguir as coisas, que dedica-se ao trabalho de forma digna, que lhe mostra o valor das coisas. Acho que isso é o mais importante. Acho...
Uma pessoa muito importante me fez ver outro lado dessa história: o fato de que muitas pessoas usam as crianças para sensibilizar, para manipular...
Isso é verdade.Essa mulher poderia estar usando esse bebê para sensibilizar as pessoas. Mas vai além disso. Há casais que usam seus filhos para manipular um ao outro. Já vi muitos casos assim, vejo muito isso no Colégio. O casal está em guerra e os filhos são usados como armas.
Crianças... que não pediram para estar naquela situação, que não escolheram. É muito fácil acreditar que estes irão se tornar tão manipuladores quanto seus mestres. E assim, essas "aprendizagens" vão passando de geração a geração.
Como acreditar em melhorias em um mundo destes, com pessoas como estas??? Pessimismo? Não! Conformismo? Não mesmo!
Trabalho pela educação, para tentar amenizar estes estragos. Acredito que através dela algumas coisas podem se acertar. É difícil, às vezes parece impossível. Mas sei que em meu trabalho já consegui auxiliar algumas poucas famílias. Sei que é pouco, mas é um grãozinho de areia (o deserto começou por algum grãozinho, não???).
Quanto à mãe e seu filho, quem sabe??? ainda há esperança. quem sabe alguém mais ousado que eu não a segure pelo braço, chame a sua atenção para os riscos que oferece à criança??? Ou então a verdadeira mãe se conscientize e deixe de alugar seu filho para este tipo de trabalho. Só espero, sinceramente, que a sorte dessa criança seja melhor que a amostra que pude ver.
Um comentário:
Enquanto pessoas, sem alternativas, se atiram a buscar a sobrevivência enfrentando riscos e sacrifícios; outros alugam crianças pra lucrar. Lucram a mulher que aluga o filho e a que o usa pra alardear miséria. Quem só paga, sem receber nada, é a criança.
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